Wanda Helena Mendes Muniz Falcão²

Há cinco anos a atenção do mundo se voltava para a Síria, os questionamentos e exclamações eram vastos; as promessas para resolução, frutíferas. As máculas deixadas pelo silêncio da comunidade internacional são revestidas por números incômodos que refletem o nosso tempo: o diálogo para a promoção da paz e dos direitos humanos se apequena ao revés, de forma alarmante, da lista de vidas marcadas por conflitos armados.

Em 2011, relembremos, houve levante popular contra o regime da família Assad que há mais de 40 anos governa aquele país com mãos fortes. O líder Bashar al-Assad evoca o povo sírio a lutar contra os revoltosos em prol da sua permanência no poder, a violência, então, se dissipa velozmente; o conflito sírio se torna, segundo a ONU, a uma das maiores crises humanitárias do recente século XXI.

Em março de 2015, a foto que nos choca: a menina levanta as mãos, se rende, e nos seus olhos a leitura da dor que continua a caminhar pelas ruas de Damasco, de Alepo e de outras tantas regiões sírias. Os dados demonstram os efeitos devastadores, a cada dia mais civis são envolvidos, mais baixas são noticiadas, se calcula que foi ultrapassada a marca de 220 mil pessoas mortas; as que sobreviveram recorrem ao refúgio noutros países. Neste contexto, as crianças são atingidas fortemente pelas hostilidades, a afetação de mais de 14 milhões, aponta o UNICEF (2015), produz um futuro incerto.

O olhar assustado daquela menina para a câmera retrata o retrocesso do que fora traçado. O sentimento de infância e sua descoberta – aduz Ariès (2011) – transita por ondas, isto se evidencia no caminhar dos anos com a percepção sobre a criança que se modifica a partir do momento em que a família também se transforma dentro do contexto social. Com a emergência do sentimento de família, passa-se a figurar seus elementos formadores, logo, surge a necessidade de se voltar para parcela infantil que não mais era uma mera “miniatura de adultos”, pois, havia ali indivíduos com especificidades e que precisavam ser assim concebidos.

Contudo, na iconografia atual, a involução é palpitante. Ao longo do tempo, passos foram dados, entretanto, as garantias reconhecidas na Convenção de 1989 são esquecidas severamente quando em situações de beligerância; há de falar em direito à educação, à saúde, à convivência familiar, à proteção integral, em escombros? O acesso a bens mínimos para vida digna se torna algo distante.

Entende-se que o processo de maturação com plenitude se vincula intimamente ao acolhimento, ao afeto recebido e ao ambiente amistoso em que se vive, afirma Vasconcellos (2009). Destarte, o conflito em terras sírias e os vultos do ISIS somados aos já existentes, impossibilitam o desenvolvimento saudável dos pequenos. Os traumas herdados pelas crianças são preocupantes, os aspectos biopsicossociais abalados, as famílias desestruturadas – quanto mais as garantias básicas são atingidas, maiores são os efeitos nocivos acarretados à criança em conflito armado, pontua Singer (2006).

Save the Children (2014), ONG britânica presente em vários países, defende a urgência de maior investimento em aparelhamento médico-hospitalar, no acompanhamento profissional quanto à saúde mental e emocional infantil, em políticas direcionadas para a recuperação destas vidas.  A eficácia destas ações depende intrinsecamente da vontade da comunidade internacional em promover ajuda aos que convivem com o nefasto cotidiano na Síria.

O não surpreendente silêncio ao quadro resvala em exponencial aumento de vítimas: são 02 milhões de meninos e meninas sem assistência humanitária, em torno de 2,6 milhões não frequentem as escolas desde 2011, quase 02 milhões estão refugiadas no Líbano, na Turquia, na Jordânia e noutras regiões do globo (UNICEF, 2015). Crianças sírias dormem em igual vala das 200 nigerianas de Chibok, dos estudantes de Peshawar, dos indefesos de Gaza. Nenhuma delas é Charlie.

Os interesses em por fim ao conflito não são condizentes com os discursos, tampouco com o ideário dos instrumentos de caráter protetivo. As falácias norteiam os últimos anos da Síria. Espera-se que as dores dos infantes se tornem marcha, que suas vozes não sejam anoitecidas, que a incerteza do amanhã se torne memória, que “as crianças [representem] por um lado, a razão que nos faz lutar pela eliminação dos piores aspectos da guerra; por outro, a nossa grande esperança de conseguirmos”².

1. Texto publicado no periódico “O Visto” (http://issuu.com/ovisto/docs/o_visto_6__1_)

2. Mestranda em Direito na UFSC. Coordenadora de Pesquisa e Produção Acadêmica da ANET.

3. Graça Machel é ativista moçambicana que capitaneou estudo que resultou no Relatório sob Resolução n. 48/157 da Assembleia Geral das Nações Unidas, Doc. A/51/306 de 28 de agosto de 1996, acerca de crianças em conflitos armados.

REFRÊNCIAS

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2011.

SINGER, Peter Warren.  Children at War. Los Angeles/USA: University of California, 2006.

SAVE THE CHILDREN NGO. A devastating toll: The impact of three years of war on the health of Syria’s children. Disponível em: < https://www.savethechildren.net/sites/default/files/A%20Devastating%20Toll%20low%20res%20non-embargoed%20SC%20net.pdf#overlay-context=article/millions-children%25E2%2580%2599s-lives-risk-collapse-syrian-health-system>. Acesso em: 23 abr. 2015.

UNICEF. Quatorze milhões de crianças afetadas pelo conflito na Síria e no Iraque, alerta UNICEF. Disponível em: <http://www.unicef.org/brazil/pt/media_29119.htm>. Acesso em: 25 abr. 2015.

VASCONCELLOS, Amélia Thereza de Moura. A criança e o futuro: Fundamentos biopsicossociais. São Paulo: Cultura, 2009.